A selva do Linkedin

Recebo mensagem no Linkedin de (o que suponho ser) um recrutador, dizendo algo como:

“Estive a ver o teu perfil e acho que eras óptima para uma vaga na empresa X, podes ver no link abaixo”.

Vou a ver o link, pedem um Senior Backend Developer, Java e .NET.

Perguntam-me vocês, e então, qual é o mal?

Não faço Java há 5 anos, e nunca peguei em .NET na vida.

É ignorância? Sendo ignorância, não é requisito do emprego que têm saberem o que estão à procura? É não ler o que está no Linkedin e, no desespero, mandar a mesma mensagem a toda a gente que tenha a palavra “backend” no perfil?

Outro clássico é eu já ter posto na minha descrição de perfil “I’m not interested in working in consulting firms, thank you.”, e mesmo assim chegarem diariamente pedidos de consultoras.

Desculpem se isto parece first world problems, já que muita gente não tem acesso ao volume de oportunidades e mensagens que eu (e maioria dos ITs) recebe; mas qual o interesse dos recrutadores e gestores perderem tempo a escrever uma mensagem a alguém que diz claramente que não está interessado?

Também me faz lembrar o clássico telefonema em que a pessoa do outro lado começa a desfiar o rosário de como a empresa deles é incrível, como o projecto é incrível, sem me perguntarem antes ou me darem sequer oportunidade de dizer que não estou interessada sem antes passarem 10 minutos de monólogo. Perdem todos tempo, é desagradável.

O dia em que tive um microfone na mão

Entretanto acho que já passou tempo suficiente desde o dia em que fui falar a uma conferência para poder falar da experiência.

Para começar, as semanas que antecederam o evento foram um crescendo de tensão. Na noite anterior, tive a oportunidade de falar numa pequena entrevista sobre a temática, e não correu de todo como eu esperava. Tinha todo um discurso preparado, coisas super eloquentes para dizer, e no momento fiquei super nervosa e não consegui dizer grande coisa. Gravei a entrevista, mas não a ouvi ainda e tenho medo de me ouvir.

Fiquei super triste porque o tema As Mulheres na Informática é um tema que me diz muito. O principal propósito deste blog, para além de eu dizer parvoíces, é precisamente para falar sobre a parvoíce diversa que nós, a trabalhar nesta área, enfrentamos com frequência, assim como situações caricatas.

Assim, e tendo a plataforma para isso, óbvio que quero contribuir para esclarecer os problemas actuais, e em como podemos ter mais mulheres nesta área e finalmente atingir a igualdade de género. E fiquei triste porque, nessa primeira fase, senti que falhei. Queria conseguir inspirar, e fiquei aquém. Acho que fiquei desiludida comigo própria.

O evento em si correu melhor. Falei menos do que tinha planeado, mas quando falei não estava nervosa. Como meti conversa com as outras mulheres que iam também falar nesse dia, e estava sentada ao lado delas, não me senti intimidada, nem pela plateia que estava a assistir. Claro que antes estava super nervosa a rever as minhas notas, mas no momento senti que consegui falar de forma clara.

O teor da minha exposição passou um bocado pelo que já falo aqui: como venho de uma família de ITs e o que me levou a escolher esta área, como já duvidei ter sido contratada pelas minhas capacidades ou pelo facto de ser mulher e de ficar bonito nos quadros ter esse Pokémon raro, e como o facto de estarmos em minoria, seja ela de género ou de etnia, nos faz retrair mais no momento de contribuir.

Fiquei contente e aliviada quando terminou a intervenção sem eu ter dito nada de ridículo, mas também fiquei desiludida por não ter conseguido tocar em pontos mais sensíveis.

E fiquei a pensar: poderia haver alguma forma de eu ter uma plataforma mais abrangente, onde pudesse falar de forma mais séria sobre a igualdade de género na informática?

Talvez o ideal fosse ter uma crónica numa publicação – não tinha de lidar com ansiedade estúpida e conseguiria abordar o que pretendia da forma mais correcta.

Mas depois também me ocorreu: há alguém que queira ouvir?

Não sei. No fim do dia, tenho dúvidas sobre o impacto da minha participação nesta conferência, embora tenha ficado muito satisfeita por ter participado, e por ter ouvido as histórias das outras participantes. E fiquei muito, muito agradecida a todos os que me proporcionaram esta oportunidade e que me apoiaram – o Mr. IT conseguiu ir assistir!

Às senhoras que trabalham / estudam / t|em aspirações nesta área: estamos juntas!

Eu sei lá menina

O título do post é porque nem sei o que diga.

Há duas semanas – a meio precisamente do apocalipse emocional – um antigo chefe ligou-me a pedir-me ajuda para umas coisas. Precisava dessas coisas para Sexta-feira, sendo que estávamos para aí na Terça. Eu disse que não ia dar, que estava com muita coisa em cima, desculpa mas não consigo, etc., só se fosse a partir de Maio, disse-lhe eu.

Ele é muito boa pessoa, ele gosta de mim e eu gosto dele, mas sempre que ele me liga eu tenho noção que estou prestes a ser arrastada para um imbróglio. Eu saí daquela empresa por um motivo – pela avalanche de cocó shit diária. Disse que estava disponível a partir de Maio, e não NUNCA como queria porque me sinto em dívida para com ele.

Há uns dias (no dia 2 de Maio, confere) ligou-me outra vez, a pedir umas outras coisas, mais simples, para ter prontas este Domingo. Iria pagar um valor, não muito alto, mas que dá sempre jeito no meu orçamento.

Como não me pareciam coisas muuuuito complexas – consistia em ir buscar umas cenas à BD, mostrar numa tabela fancy e exportar para CSV – disse que ia dar uma vista de olhos e tentar ajudar.

E comecei assim a fazer commits para o projecto. Quando chegou a altura de fazer a query à BD para extrair a informação pedida, apercebi-me que:

  1. Não tinha percebido a 100% o que me estavam a pedir para fazer, péssimo sinal;
  2. Tinha zero conhecimento do modelo de dados e onde poderia ir buscar o que eu achava que me estavam a pedir.
  3. Ponto 2 impede o 1, o 1 impede o 2, deadlock fatal para prosseguir.

Isto foi ontem à noite, depois de perder 3h depois do jantar a tentar fazer uma query e a constatar que não sabia confirmar se os resultados estavam OK.

Mandei um email com as minhas dúvidas.

Ainda ninguém me respondeu.

É muito mau estar a rezar para que não me respondam, para poder sacudir a água do capote e desmarcar-me do que prevejo que irá ser um drama?

Bem sei que falo em querer arranjar freelances para eventualmente conseguir trabalhar a partir de casa, mas este é precisamente o meu medo no freelancing: é o ter que fazer magia a partir apenas de incógnitas. É impossível. E a apoquentação que isto me causa não compensa o pouco que pretendem pagar.