Fúria

Acerca da notícia avançada pelo Observador, IMASOLDIER. O grupo secreto do Facebook que publicou o vídeo da jovem alegadamente abusada.

Para além de toda a situação no autocarro da queima e dos comentários de culpabilização da vítima que se geraram – custa-me ver que no meu tempo já era assim e que agora, 10 anos depois, a conversa é a mesma, há toda uma vertente também gravíssima que a notícia ilustra:

“As publicações no IMASOLDIER, que terá militares e agentes das forças de segurança entre os membros, são invariavelmente fotografias e vídeos de conteúdo sexualmente explícito (atos de sexo anal e oral são mais louvados do que outros), captados sem o conhecimento das intervenientes.”

“Alguns membros do grupo — há publicações feitas a partir de todo o país e até de Angola — têm ainda por hábito fotografar mulheres desconhecidas na rua, de costas ou não, partilhando depois o local onde se cruzaram com elas ou onde podem ser habitualmente encontradas.”

Fiquei profundamente enojada quando li isto.

O grupo tem mais 5000 pessoas inscritas neste momento, sendo este uma segunda iteração. O primeiro tinha quase 50.000.

Podem fazer como a One Woman Show sugeriu: quantos amigos vossos estão no grupo?

Gostava que esta malta fosse apanhada e visse a sua vida a correr muito mal num futuro próximo, mas sei que não vai acontecer nada. Não há sentenças, não há porra nenhuma que puna estes bandidos. E nós, mulheres, ficamos a aguardar que algo nos aconteça.

4 thoughts on “Fúria

  1. Já fiz parte de grupos assim, não o imasoldier, mas versões mais pequenas de círculos de amigos onde partilhávamos fotos de ex-namoradas ou de gajas que andávamos a comer…Não é nada de novo, sempre existiu e vai continuar a existir. A grande maioria das vezes ninguém é lesado com isto, eu nunca tive uma namorada que tivesse chegado a saber.
    Se as mulheres querem que isto acaba, basta não enviarem nudes, nem aceitarem fazer sex tapes…( nunca ninguém as obrigou…)

    1. Ok, vamos por partes.
      O espírito “sempre existiu e vai continuar a existir” faz parte do problema actual, que é a mentalidade de desrespeito pela intimidade e privacidade alheias, quer seja de mulheres ou de homens. Se a pessoa não deu o consentimento para publicação e/ou partilha, não se publica nem se partilha. Portanto, assumir-se que vai sempre assim não resolve o problema: temos de lutar contra este cenário para que deixe finalmente de ser aceitável por todos.
      “A grande maioria das vezes ninguém é lesado com isto”. Não vejo como. Desconhecer que aconteceu não significa que não tenha acontecido. É a mesma coisa se a tua namorada te trair e tu não souberes. A merda está feita, quer tu saibas dela ou não.
      Em relação ao teu último parágrafo, e se entendi o texto do Observador correctamente, há a vertente de fotos que foram enviadas para os namorados / maridos / w/e e que eles partilharam com alguém sem o consentimento delas – o que, para mim, implica que são umas bestas que não merecem a confiança delas – como também a vertente que elas estavam a ser filmadas sem saberem. Como esperas que essas mulheres impeçam isso de acontecer?
      Este é o grande problema aqui. É que quem perpetua este tipo de situação acha que não está a fazer nada de errado, ou então só acha que está mal quando são mulheres que “lhe dizem respeito” que estão envolvidas, como as esposas, irmãs, filhas… Quando o respeito deveria ser algo universal.

      1. “há a vertente de fotos que foram enviadas para os namorados / maridos / w/e e que eles partilharam com alguém sem o consentimento delas – o que, para mim, implica que são umas bestas que não merecem a confiança delas – como também a vertente que elas estavam a ser filmadas sem saberem. Como esperas que essas mulheres impeçam isso de acontecer?”

        Simples, escolham bem as pessoas com quem têm sexo… Se não querem ser surpreendidas com leaks de fotos ou vídeos ocultos basta andarem com homens correctos…

        Se algum dia sair na net um vídeo meu, a culpa vai ser inteiramente minha, 1) porque o fiz 2) porque dormi com alguém com quem não existia confiança….

        temos de acabar com estas mentalidades de vítima …. quem não têm cuidado acaba por ter as consequências negativas que merece.

        1. Não concordo. A pessoa que partilha é quem está a cometer o crime, logo a culpa é somente dessa pessoa. Tal como em violações, a culpa é do violador.

          Temos é de acabar com a mentalidade da culpabilização da vítima, que, infelizmente e conforme estes comentários demonstram, está viva e de boa saúde no nosso país e não só.

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