Apoquentações

Estou há já vários dias na dúvida se deva escrever ou não sobre este tema, já que é um acontecimento recente e pode levar à minha identificação e a problemas. Mas depois pensei, “foi para situações como esta que criei o blog”.

Poderão, ou não, estar lembrados das minhas situações e divagações sobre sexismo na área de IT. Tenho à mão estas situações, mas tenho outras que ainda não abordei cá.

Uma das coisas que me irrita desde tenra idade, ainda eu não tinha aspirações feministas, é o facto de, quando se fala em Informática, haver o pressuposto que as pessoas de quem falamos possuem uma pila. Um exemplo que posso dar é o de uma revista sobre gadgets que era popular nos meus tempos de secundário, que eu gostava de ler, mas tinha vergonha de comprar, por este motivo:

Exacto.
Exacto.

Queria comprar uma revista onde pudesse ler sobre leitores de mp3, mas quando chegava à caixa para pagar a revista sentia-me como se estivesse a comprar uma revista porno. Entretanto também se tornou mais fácil e rápido obter esse tipo de notícias pela internet fora, tanto que este tipo de revistas está em declínio – quer-me parecer que a Stuff em particular já não existe em Portugal, mas tenho a clara sensação que ainda há senhoras quase peladas em várias capas de revistas de tecnologia hoje em dia.

Este é um pequeno exemplo do que tenho visto no meu percurso nesta área, e que tenho visto, sem dúvida, a melhorar ao longo dos anos: hoje em dia, as grandes publicações tentam manter um tom neutro ao nível de género.


E chegamos então à situação que pretendo aqui relatar.

Numa das publicações da empresa onde actualmente trabalho, sem entrar em muitos detalhes, tinha uma passagem que se poderia chamar de sexista. Concretamente, uma piadeca. Não era nada altamente ofensivo, de todo. Mas chateou-me e deixou-me mal disposta, porque é o tipo de coisa que tenho visto toda a minha vida. Era o que faltava ver a empresa, onde trabalho e cuja comunicação, de certa forma, me representa, a adoptar aquele tipo de discurso, ainda que não fosse uma coisa grave.

Uma colega minha já se tinha queixado e tinha sido ignorada. Expus a situação num canal da empresa, um onde à partida não se fala de assuntos sérios mas que tem alguma audiência. Não tenho a certeza se terei errado nesse ponto e se devia ter tentado de forma mais privada primeiro, mas o facto da minha colega ter sido ignorada levou-me a optar por esta via.

Lancei o tema com uma piada minha, com o objectivo de expôr o quão ridícula era a passagem. A malta riu-se, a minha colega mencionou que já se tinha queixado, e eu acrescentei que realmente demonstrava um pouco de falta de noção. Mais uma ou duas colegas também se manifestaram, mas poucas.

Aqui foi a parte em que a malta de comunicação começou a mandar estatísticas, que o target era maioritariamente homens, que tudo o que escrevem é pensado, etc.

Eu nunca pus em causa o trabalho deles. Só chamei à atenção que uma piada feita numa publicação era de mau tom. Quando vi a resposta das estatísticas, meio que me passei e senti que este tema tinha saído do campo da piadeca para o campo em que eu ia ter de dizer alguma coisa a sério. E respondi.

Sim, esses números são semelhantes aos que vejo na minha área, onde sou uma minoria. Devo sentir-me desconfortável por isso?

Nesta altura já não estava na empresa, mas percebi que já se tinha gerado um circo em praça pública, e comecei-me a sentir um bocado mal por estar a responder mal ao meu colega da comunicação. Mas farta estou eu de toda a minha vida deixar passar este género de situações, ainda que individualmente não sejam graves de todo, mas que acumulam-se e tornam esta área um verdadeiro circle jerk.

A situação acabou por se resolver com a remoção da passagem, mas não antes de se gerar todo um drama com a líder de equipa de comunicação, que é uma mulher e não viu qualquer problema na piada. No fim, ficou tudo bem com toda a gente.

No entanto, no dia seguinte, ouvi piadolas de um colega, com o qual tenho zero confiança; coisas do género “há coisas mesmo bué ofensivas”, “some people just want want to watch the world burn”, etc. Ao qual não respondi porque fiquei honestamente WTF por um gajo que eu não conheço praticamente me estar a mandar bocas.

Houve colegas que me perguntaram se eu fiquei verdadeiramente ofendida com a passagem, ao que eu respondi que não, só fiquei aborrecida com a reacção às minhas preocupações. Foi-me dito diversas vezes que as pessoas ofendem-se com tudo, e que não podia ser, etc.

Estou a chamar a este incidente na minha vida o Apocalipse Feminista.

Não me arrependo da exposição que fiz. Causei confusão que poderá ter sido interpretada como peixeirada (mas que nunca chegou a isso, de todo), mas não quero ser representada por ideias que eram mais frequentes há 10 anos atrás. Mostrei a passagem a várias colegas minhas da área, e todas tinham a mesma opinião. Uma delas particularmente respondeu “Está um bocado abusado está, mas é o habitual da nossa área, enfim”.

O que eu quero é que isto deixe de ser o habitual. Parem por favor de assumir que eu tenho uma pila por ser programadora. Aos poucos vamos lá, malta.

Atentamente,

Miss IT

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