Informática em Portugal – cenário geral

O sector da informática em Portugal, ao contrário de muitos, não está pelas ruas da amargura. Uma pessoa minimamente competente E com um curso de jeito consegue arranjar emprego à saída da faculdade.

Mas, ainda estava eu a terminar o curso, e já ouvia o zumzum entre os alunos: que a empregabilidade do nosso curso era de 100%, mas que ia-se a ver e as ofertas eram fraquitas, estágios a ganhar salário mínimo, etc.

Claro que, comparando esse cenário com outros cursos, estávamos nas Arábias (ou seja, chovia dinheiro), mas não estávamos a tirar um curso numa das melhores faculdades do país para irmos ser explorados.

A minha experiência hoje diz-me o seguinte:

  • Consultoras. Ganha-se bem, é-se explorado, a trabalhar das 8h às 22h, etc. Hoje em dia, o salário de entrada numa consultora é mais baixo do que quando comecei, e mesmo as grandes consultoras recorrem a estágios profissionais do IEFP, que acho absurdo.
  • Startups. Há startups aos montes neste país. A maioria delas quer ter um developer de topo e N anos de experiência e pagar 800€ de salário, que é absurdo. Outras startups têm investidores a apoiar, e aí são capazes de largar os cordões à bolsa.
  • Médias empresas. Semelhante à startup pobre, quer o mega profissional por muito pouco dinheiro.

Claro que tudo depende do ramo em que se está a trabalhar, e estou a falar de Lisboa. No Porto, abundam as startups pobres, a aproveitar-se dos estágios curriculares para terem mão de obra gratuita, sem sequer pagar um mísero subsídio de almoço.

A cultura de desenvolvimento é o desenrascanço. Na faculdade, foi tudo o que aprendi, a desenrascar e a arranjar soluções rápidas. Claro que a qualidade do trabalho se ressente, e a menos que haja iniciativa própria para desenvolver portefólio, este dificilmente existe.

Muitos anúncios que vejo perguntam pelo meu endereço de Github e contribuições que tenha feito. Jovens, eu chego a casa, passeio a cadela, ponho o jantar a andar, roupa a lavar, e nisto são 22h. E mesmo assim tenho a casa imunda. Noutros países, em que se acorda mais cedo e sai-se mais cedo do trabalho, acredito que dê para chegar a casa, relaxar, e dar asas à criatividade. Eu tenho projectos na cabeça que aí ficam por falta de tempo para os passar para o computador.

No horário laboral, é a falta de planeamento que impera, regra geral. Ou, havendo planeamento, é 100% irrealista, feito por gestores que nada percebem do assunto (e muitas vezes com aquilo a que eu chamo de paridelas, que são ideias surrealistas que acham possíveis de serem feitas).

O que acontece então é um projecto vendido como um Palácio de Buckingham que, se tirarmos a fachada, é apenas um castelo de cartas colado com pastilha elástica: à primeira crise, rebenta tudo por todos os lados.

Claro que estamos melhor que arquitectos, enfermeiros, psicólogos, etc., que por vezes nem trabalho gratuito arranjam. Mas também não se está bem. E por isso vejo tantos colegas meus a emigrar e a ficarem muito mais satisfeitos lá fora que alguma vez aqui estiveram.

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